PEQUENOS CISNES (Kátia Pastre)


 

PEQUENOS CISNES (Kátia Pastre)



            Somos quatro no fundo do palco. Sou a segunda, abro meus braços e seguro firme nas mãos de minhas colegas, braços entrelaçados. Todas olhamos para a mesma diagonal. Se uma errar, tudo fica errado. Não posso errar.

            Palco, luz. Plateia, escuridão. Perna, sapatilha, cetim, brilho, ponta do pé no chão. Pé, cetim, brilho, breu, apoio e posição. Branco, rostos, roupas e plumas. Cabelo, coque, laquê e plumas. Preto, olhos. Músculos. Barriga. Pulmão. Coração. Silêncio. Maestro, orquestra e partitura. Música.

            O que parece impossível é bonito e o pé contrário toca delicado o chão. Alterno os pés, curvados em pontas rijas, joelhos dobrando e esticando na música, sincronia perfeita. Dezesseis pares se alternado. Se uma tropeçar, todas ficam trôpegas. Não posso tropeçar.

            Jeté, pas de bourré contínuos como pontos de máquina de costura, pernas quase entrelaçadas umas nas outras. Para o outro lado, um ziguezague de pontos miúdos e simétricos, agulha sobe e desce. Não posso ir mais rápido, não posso ir mais devagar, não posso puxar, não posso empurrar. Tenho que ficar na música. Todas temos.

            Pequenos saltos, changements trocando os pés no ar, a cabeça alternando os lados, a marcação rígida disfarçada. Não posso pular mais alto, mesmo que consiga. Se uma pular fora, tudo fica feio. Não posso pular fora.

            Subo e desço em elevés e a cabeça ganha mais uma posição com que me preocupar. Os tutus emplumados pulsam como se tentassem a liberdade. Deslizamos pelo palco em bando, pernas feito agulhas de um tricô trabalhado, com passeios alternando diagonais já passamos do meio do palco. Se uma cair, todas vão ao chão. Não posso cair.

            O vai e volta das pernas, as pontas dos pés rijas, as mãos dadas. Somos massa que deu liga. Se uma perder a contagem, tudo fica desandado. Não posso perder a contagem.

As flautas calam, solto a mão de minhas companheiras. Subo na ponta do pé, ergo o braço suave num adágio que só falta alçar voo. Sou eu me ajoelhando elegante, braços cruzados sobre o peito como asas. Aplausos. Agradeço graciosa, saio do palco. Todas quatro saímos.


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