ZUNKINHA (Kátia Pastre)


 

ZUNKINHA  (Kátia Pastre)


          A sexta é treze, o gato é preto, um clichê...

          Você acorda, vê aquele dia de sol indeciso, vai trabalhar arrastando os pés, começa o trabalho com o peso do mundo na lombar, e não há café levanta defunto que dê partida no seu motor de arranque cerebral.

O piloto é tão automático, que você só percebe que sextou pelos sininhos do Whatsapp, trazendo uma enxurrada de memes de gato preto, sextou treze! Um gato leva a outros gatos, trocadilho que serve para bichos, e também para mulheres que estão na pista(ah!).

Se você já teve gato, sabe que é bicho independente, cheio de opinião e vontade própria. Até os mais vira-latas são de uma elegância digna de passarela. O pelo brilhoso, toque macio de seda nos seus dedos, você nem se dá conta de que são limpos à custa de lixa embebida em saliva (argh!). O gato recebe seu carinho SE ELE QUISER, e você se sente o máximo por ele deixar você o acariciar. O gato é a Uber-model dos animais.

No Egito antigo, havia a deusa felina Bastet, no início uma leoa guerreira evocada para proteger o rei na batalha. Depois, os egípcios domesticaram os gatos, Bastet virou gata, paz e amor, protetora da saúde individual, dos lares e da fertilidade. Recentemente, encontraram centenas de múmias de gato perto da tumba de um antigo sacerdote, possivelmente oferendas votivas. Você venera o bicho pela ferocidade, você domestica o bicho, passa a venerar o bicho pela afeição, então você o compra, mumifica e oferece para a deusa que o representa. O bicho homem é estranho, não é de hoje...

Muita gente gosta de gato, como a senhora que frequentava há anos o salão do cabelereiro, tutor de uma gata siamesa. Olhões azuis, cheiro de laquê, mais fofa que a fofura da almofada onde se esparramava, olhar blasé nas tesouras e cabelos esvoaçantes, a gata parecia mais avantajada que o habitual.

Não era de tanto ser empanturrada pela fartura de ração chique e atum enlatado, não atum de gato, que para esse ela torcia os bigodes. A gata estava prenhe. A senhora se adiantou e pediu duas de suas futuras crias.

Quatro saudáveis gatinhos. No lugar de olhos azuis, amarelo-penetrante, no lugar do pelo bege e marrom, preto azulado, todos os quatro. Você gosta de gato, pede o gato e quando o gato nasce, você não pode recusar o gato. A senhora levou um par de bolinhas pretas para casa, batizados Zunkinha e Bizunkinha. Cada um dá o nome que bem entende para o próprio bichano.

Bizunkinha era bem comum, roçava as costas na barra das roupas e pulava no colo dos desavisados, era ágil ao subir em muros e cair em pé, usava seu banheiro de gato, as pedrinhas devidamente chutadas para trás para cobrir sua sujeira. Curioso, um quê de ressabiado, como todo bom gato, veio equipado com o gene da sede de liberdade, que estimulado por hormônios de ímpetos por fêmeas, ficou difícil de ser mantido em casa. Deu uma fugida sorrateira por uma fresta e morreu atropelado. Você ama o gato, quando ele morre você chora por ele e não quer que a desgraça se repita. Gato castrado se assossega.

O destino do Zunkinha foi o bisturi do veterinário. A senhora não queria chorar perder seu outro xodó. Pobre Zunkinha. Voltou do veterinário e se recuperou rápido, tratado à ração premium e atum de lata, não de gato, que esse ele nunca quis provar.

Zunkinha nasceu gato, mas se acreditava pantera. Dentro da máxima de que toda generalização é burra, mesmo castrado coroou-se rei dos muros e telhados da rua. Tinha sua própria arma disparadora de urina, e não tinha medo de usá-la. A menos que você aceite ter móveis com perfume forte, dos quais ninguém quer se aproximar, você aceita se tornar porteiro do gato. Você ama aquele charme sedoso com língua de lixa, o desgraçado tem seu coração sob as patinhas.

Pela manhã, o miado insistente só cessava com a abertura da porta da rua, o retorno da balada. Entrava feito um tiro, exigia aos berros seu brunch de atum e ração, depois buscava sua almofada, no seu lugar do sofá, perfeito pelo calor do sol da janela, arejado por uma corrente ar.

Afofava a almofada com as agulhinhas das patas, aquela música horripilante de tecido esgarçando. Rodava em volta de si mesmo até resolver se aboletar. Fechava os olhos e partia para o lugar onde traçava seus planos de combate noturno, selecionava as árias para os shows de muro e revisava percursos estratégicos pelos telhados. O ronco era pesado, às vezes a patinha tremelicava sozinha. Depois do almoço, a senhora sentava-se bordar ao lado do dorminhoco. Que gato mansinho.

Perto do fim da tarde, Zunkinha despertava quando as comadres já proseavam no portão da casa. Preguiçoso, esticava as patas se arreganhando todo, o bocejo com a língua se espreguiçando fora da boca. Levava seu remelexo gatuno até a mureta larga da grade, onde se refastelava sob o sol, um monarca que fingia não observar seus domínios atentamente, enquanto se dava um banho de gato caprichado. Que gato lindo.

À noite, após o régio jantar, Zunkinha exigia com miados estridentes a abertura da porta, sempre entre a novela e o Jornal Nacional, justo no momento que a senhora fritava o bife da janta, as panelas em risco de fazer carvão. Se ela não corresse abrir a porta da rua, ele a lembrava de que estava armado e não tinha medo de atirar. O poder de fogo dele era capaz de carimbar locais inimagináveis, ela vinha esbaforida. Que gato de merda!

A vizinhança da senhora costumava ter muitos gatos. Zunkinha, castrado, nunca se aceitou como tal. Surrava qualquer macho externo que aparecesse pelos seus domínios. A senhora reconhecia o miado dele de longe, às vezes acordava de coração na mão, rezava para São Francisco de Assis o trazer de volta ileso da boemia.

Zunkinha, rei pantera, nunca levou desaforo, nem de cachorro, pequeno ou grande, era valente a ponto de ser temido até pelo pitbull do vizinho. Você conhece o tipo, quando homem e bicho são cara de um, fuça do outro, fortão e musculoso, o pit bull levava o dono para passear, enquanto soltava suas necessidades.

Esse cão caiu na besteira de encarar Zunkinha, bem quando ele tratava de seu asseio lingual diário. O rei ultrajado deu uma invertida no cachorrão, o fez ganir com o rabo entre as pernas, e continuava a desafiá-lo, presas e garras à mostra, um barulho intimidador, os pelos pretos eriçados feito porco-espinho. Vem pro pau! Naquela calçada, aquele cão não trouxe mais seu dono, convinha atravessar a rua.

A vizinhança da senhora costumava ter muitos gatos, e cachorros também. A senhora adotou outros gatos, sempre tentava dar um novo irmão ou irmã ao Zunkinha. Como bom rei, ele aturava esses súditos em sua corte, um após o outro, desde que não o importunassem em seu sono diário, sua farra noturna, seus banhos de gato ou suas refeições não compartilháveis. Limites estabelecidos e respeitados, chegou até a conviver com cachorro na casa.

Nem todo mundo gosta de gato, tem quem não goste de bicho algum. Você certamente conhece histórias de chumbinho, recheando salsichas e petiscos. Muitos gatos e cachorros foram ceifados assim. Muitos quintais alheios foram violados assim. Muitos habitantes da casa da senhora partiram assim. O tipo de gente que faz isso não vê limite no respeito à vida. O bicho homem é um bicho muito perigoso.

Reis são exigentes, só gostam de ração premium e atum em lata, não atum de gato, que é resto de peixe com fedor de atum. Zunkinha sempre desprezou qualquer banquete oferecido fora de casa, tampouco era o tipo curioso. Enterrou muitos irmãos, irmãs, companheiros de farra, namoradas, até cachorros. Enterros banhados em lágrimas de revolta da senhora, depois dos quais ele se deixava coçar por ela até que ela se cansasse. Que gato companheiro

O tempo trouxe fiapos de pelo branco. Ainda era bom de briga, mas às vezes levava a pior, voltava todo estropiado. A senhora cuidava de Zunkinha, com amor, com atum, às vezes até com o veterinário. Ele sossegava o facho por uns dias, depois voltava à gandaia noturna. Que gato vira lata!

Ficou mais idoso do que qualquer outro gato que a senhora, ou qualquer outra pessoa, já conhecera, o Matusalém dos gatos. Tirava cochilos cada vez mais longos. Ficou preguiçoso a ponto de deixar sua nova irmãzinha rolar sobre seu lombo, até que ela desmaiasse de cansada, como uma cobertinha viva sobre ele, dormiam juntos e quentinhos. Você com certeza já viu um filhote, sabe como eles são, uns pestinhas fofos.

Zunkinha abriu os olhos e viu o Bizunkinha. Estava correndo, do jeito que gostava. A mãe siamesa, linda de morrer, estava refastelada junto de outros felinos, conhecidos e desconhecidos, do pai, de leões, de panteras, de seus iguais, todos ao redor da deusa Bastet. Zunkinha viu um homem conhecido, foi roçar as costas na barra felpuda da batina dele, velho amigo e conhecido da senhora, Francisco, deixou de afagar por ele. Havia uns cachorros por perto, mas o pit bull já espalhara sua fama por entre eles.

Você olha pela janela, aquele sol não se decidiu, veio a tarde cinzenta da sexta feira treze, sinalizada pelos gatos pretos no Whatsapp. O fim do expediente se aproxima. Thanks God it’s Friday, amanhã será sábado catorze, dia em que dá para se levantar com a mesma preguiça do gato Zunkinha. Que tal um happy hour?

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