LIBERDADE?

 

LIBERDADE? (Kátia Pastre)


(Independência ou Morte, Pedro Américo, 1888)


            Na minha vadiagem, quase fui atropelado e pisoteado. Saí do caminho ganindo e fiquei apreciando a poeira nervosa. Depois segui tudo aquilo de uma distância segura, não tinha o porquê de eu perder aquela animação.

            Depositei meu traseiro ossudo do lado de um casebre onde um homem com fumaça fedida e uma garota sorridente sempre me deixam água e um pão dormido empapado em um pouco de leite. Por vezes até ganho um afago.

            Do outro lado do rio, protegido pela ponte, eu achei esse mundo grande e bruto. Pouco tempo depois, fiquei só sem perceber. Estou por conta própria e o que me dão nesse casebre faz minha barriga doer menos. Como eu, eles não têm pés cobertos e nunca estão muito limpos.

            O lugar é calmo, mas nesse dia não. Há uma gritaria, uma falação, um monte de gente de roupa igual, roupa bonita e pés cobertos com botinas. Muitos cavalos, eu tenho medo deles, barulhentos e soltam do nada sua sujeira que, se me atinge na certa me mata. De longe, bem de longe, até acho bonito.

            Tem gente batendo palmas, gritando que são livres, no meio deles um homem agita bravo uma espada no ar. Acho graça, quanto mais bravo ele parece, mais felizes parecem os homens ao redor dele. Os gritos de liberdade são de uma euforia histérica. Eu bocejo.

            O sol está confortável e eu me aninho. Olho para o lado, a garota e o homem da fumaça fedida estão felizes, dando copos de uma água que queima o nariz para alguns dos homens de uniforme. Sinto cheiro de linguiça frita, um desses homens me joga um pedaço. Eu tentei abocanhar de uma vez, mas minha boca é pequena e ele ri, diz que sou valentão.

            O céu ficou escuro, o calorzinho reconfortante se foi, mas há música e cantoria por toda parte. A gente desse lugar está feliz como nunca esteve. Ganhei mais linguiça e pão fresco do mesmo homem, mas ele se foi logo após me dar um afago. O amigo dele jogou um pano com cheiro de cavalo em mim, pinica um pouco, mas parece o tempo que eu não era sozinho.

            Amanheceu, ganho meu naco de pão dormido no leite. Me empanturrei na festa, mas não recuso. Deus sabe quando verei fartura assim de novo. O homem da fumaça fedida e a garota estão limpos, bem mais limpos que eu, nunca vi eles assim.

            Alguém me pega no colo, eu tento protestar, mas o afago é tão bom e o cheiro me é familiar. O homem que me empanturrou, ele ri.

            - É de vocês?

            - É não. É de ninguém.

            - É valentão e festeiro. Meu menino vai gostar de um amigo assim. Vou levar.

            - Deus lhe pague a caridade. Na minha porta não morre de fome.

            - Em homenagem à nossa nova vida, vou te chamar de Imperador.

            Fiquei balançando a cabeça, olhando e erguendo as orelhas. O nome é grande, não dou a mínima, mas gosto desse homem que me deu linguiça.

            Fui ajeitado numa bolsinha à tiracolo junto ao peito dele, que subiu no cavalo e saímos rumo à capital, um lugar longe onde esse homem mora, onde ele ajuda cuidar do homem que gritava com espada na mão, um homem que resolveu que as terras da gente daqui são da gente daqui e não são mais da gente que mora depois do mar. Liberdade, essa terra não tem mais dono, é dela mesma, é livre.

            Agora eu tenho dono, tenho nome e sinto vontade de fazer festa o tempo todo. Minha barriga nunca dói, sempre tem um lugar quentinho para um cochilo, muitas mãos me afagam e meu traseiro é rechonchudo. Nunca fico sozinho, essa é a melhor parte de ter dono. Nunca vou entender o homem.

Créditos da foto:

https://www.reddit.com/r/brasil/comments/9dqxr0/independ%C3%AAncia_ou_morte_ou_o_grito_de_ipiranga/


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