FÉRIAS DE VERÃO
FÉRIAS DE VERÃO (Kátia Pastre)
Manhã caótica, caminho longo, as
crianças querendo correr perto da rua, equilibro cadeira, guarda sol e me agarro
às mãozinhas. Na garagem, que já não é mais, a senhorinha é amparada no seu
passo curto de pernas palito, até ser colocada na cadeira, os olhos estáticos
na rua. Um lar de velhinhos sem placa.
No retorno, os pequenos padecem de
cansaço e fome. Sol escalda cimento, que devolve tudo com força. Escuto o
mantra areia, calor, sede e colo, mas me livrei da correria. Cabelinho branco, ela
está sentada sozinha, olhos na rua sem nada ver. A telha de cimento faz sombra,
mas sinto o bafo de estufa. A pele enrugada, a boca entreaberta, a cabeça meio
trêmula, a cadeira na mesma posição, os pés na mesma posição, a coluna um pouco
arqueada. Será almoço da cuidadora?
As crianças tomam banho, comem e
desmaiam. Peço para a vizinha ficar de olho enquanto dou um pulo no mercadinho pegar
itens de geladeira. O sol de matar, o bafo da telha é de matar. A água dada na
boca pela moça de branco é bebida sem expressão. Olhos fixos, pés apoiados,
costas endireitadas. O ladrilho marrom é velho e a pintura está judiada.
Volto correndo, ou arrisco o sorvete
virar crème brûlée. Sentada e calada, costas arqueadas, ela está cercada
de uns três idosos, expressões tão vazias quanto a dela. O bafo vem quente e
com cheiro acre. Um deles trôpego quase perde as calças na magreza.
Sem tanto sossego quanto eu mereço,
as crianças acordam. O sol baixou, lá vou eu com cadeira, brinquedos e
mãozinhas. Graças a Deus é sexta, logo mais ganho dois dias de trabalho divido
ou de meio sossego, o termo a usar depende do estresse da semana e da
quantidade de trânsito que ele enfrentar na serra.
Chinelos sem dedo com meia de malha clara são
arrastados com amparo. O robe de algodão fino simples, feito camisola de
hospital, mas fechada e respeitosa, tem estampa miúda. Está limpo e poderia ser
mais novo. Ladrilho úmido e o bafo morno cheira a desinfetante popular.
O sol quase se foi. Suborno as crianças com churros
no caminho de volta. Para mim, nada, tenho que dar conta dos restos. Se lambuzam
calmos, mesmo com açúcar goela abaixo, corpinhos quebrados no mar. Uma brisa
ameaça. No bafo cansativo, ela sentada, pés paralelos, olhos na rua e ninguém
ao redor, costas arqueadas. A pele parece mais enrugada e opaca. Uma das
crianças dá um baque na grade, eu chamo a atenção. Da garagem a reação é nula.
Reclamação de mão grudenta, apoio as coisas na
cadeira armada e meia garrafa de água dá conta do limpar. O show que damos é
invisível aos olhos baços, eternamente na rua, se pacientes ou distantes, não
sei dizer. Fecho a cadeira e arrasto as crianças, o rabo de olho sem desgrudar
das mãos manchadas do tempo, com dedos finos, compridos e nodosos, agarrados com
força aos braços da cadeira. Um fio denso escorre do canto da boca frouxa.
O humor bom desceu a serra e trouxe consigo o
fôlego da minha cunhada. Caminho à noite de mãos dadas. Na garagem escura, a porta
aberta da sala iluminada só no brilho da TV, o bafo morno com aroma de biscoito
e sopa. Siriris infestam a luz da rua. O vazio da garagem assusta. Uma pressão
leve na mão me puxa daquilo. Tomaremos sorvete de casquinha.

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