ÁCIDO

 

ÁCIDO (Kátia Pastre)




            Retrucou rápido com um sorriso de canto de boca desprovido de charme, que fez seu interlocutor ficar com cara de quem se corroía de ódio por dentro. Ele com frequência desconcertava as pessoas com seus comentários e adorava saborear isso. Mais uma vez se orgulhou de ter a resposta perfeita, mas naquele dia não tinha tempo para gastar acariciando o próprio ego e saiu correndo em direção à rua. Tinha mais o que fazer.

Comprara uma casa com a noiva, mas as pedras que revestiam o chão estavam judiadas e um pedreiro conhecido da mãe dele indicara um limpa-pedras miraculoso, que ele procrastinava a compra havia mais de mês. Se comprometera em levar o dito cujo naquele final de semana, e se chegasse de mãos abanando na casa da noiva, iria ouvir mais um sermão de caráter explicativo “do quanto ele não se importava”.

Entrou na loja alguns minutos antes de fechar. Olhou o rótulo de rabo de olho e não gostou do símbolo assustador na parte de trás do frasco. Torceu a cara enquanto pagava para o vendedor excessivamente simpático.

- Precisa de luva e máscara para usar, ou fica tudo em carne viva, mas a pedra vai ficar uma beleza de limpinha.

- E eu morto, não?

Saiu da loja faminto, mas não queria perder tempo em pegar a estrada. Estava louco de saudades da noiva após passar a semana toda longe dela. Por sorte, ele estacionara bem atrás da barraquinha da “tia do abacaxi”, que vendia fruta inteira, fatiada ou picada e pronta para comer. Ela já recolhia tudo para fechar, mas o atendeu de bom grado e ele a livrou dos três últimos potinhos, que ele iria devorar no carro durante o trajeto.

No primeiro semáforo que encontrou vermelho, tratou de atacar com voracidade o abacaxi picado, que acabou cuspido janela à fora, na sequência xingando a mãe da mulher que lhe vendera aqueles pequenos pedaços de facas afiadas. Não estava em seu DNA suportar nada que não fosse comparável a doçura do mel e jogou os outros dois potinhos para fora do carro praguejando coisas que fariam Dercy Gonçalves corar. Enquanto isso, seu estômago roncava mais do que o motor do caminhão ao lado.

Estacionou onde achou uma vaga, a alguns carros da frente da casa da noiva, do outro lado da rua. Seu estômago ardia como uma fornalha, mas finalmente ele chegara ao almejado destino, uma hora mais cedo do que ela o esperava. Iria se redimir das semanas anteriores, quando chegou muito depois do horário que a noiva considerava aceitável, o que resultara em uma discussão que ela ganhou alegando que ele “não se esforçava pelo amor deles”.

Acabara de descer do carro quando viu um cara desconhecido saindo da casa da noiva, logo em seguida reparando que ela mesma se despedia dele na porta, sorridente demais, amigável demais, íntima demais a ponto de trocar germes bucais como o cara. Muitos germes bucais...

Ele sentiu o calor na garganta, rápido e violento, e tudo o que conseguiu fazer foi inclinar o corpo para baixo, lavando a calçada. Pensou consigo mesmo se aquilo seria capaz de manchar o cimento encardido onde estava, uma vez que sentiu como se a garganta estivesse em carne viva. Sentiu-se derreter.


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