JACARÉ-AÇU
JACARÉ-AÇU (Kátia Pastre)
Comeu uma capivara gorda e estava mais que tranquilo por um bom tempo. Na margem, o focinho quase todo metido dentro d’água, jacarezando no seu melhor.
Viu a garota outra vez, só não sabia
que seria a última. Já não fazia muita conta dela, nesse dia menos ainda. Teve
vezes que pensou em dar um bom bocado nas suas carnes, mas já a havia visto com
facas e lanças, bem empunhadas e certeiras. Mesmo com fome, não convinha mexer
com ela, sempre havia banquete mais seguro. Preferia tentar a sorte com a
sucuri, se fosse o caso do estômago apertado.
Mesmo ela distraída, olhando abestalhada para o buraco brilhoso aberto no céu, ainda assim o bicho humano é traiçoeiro. O rio é grande, sempre tem peixe, e jacaré é bicho que vive muito se for esperto.
A tal moça vinha muito ali, ainda mais quando o buraco parecia mais redondo e profundo. Se ele jacarezasse em seu canto, ela nem o notava. Ela era só cantoria, só amor, só paixão, algum choro e lamentação, empoleirada em uma pedra reta cercada de mato, próxima demais de onde ele jacarezava. E tinha um brilho nos olhos, era esquisito de fascinar e dar medo. Um não bulia com o outro.
De bucho cheio, jacarezou até o olho pesar demais. Com água espalhada, estranhamente agitada, se enfiou ligeiro no rio, nem olhos nem rabo de fora. Viu a moça no fundo e o brilho nos olhos se apagando. Estranho não haver outro jacaré, nem sucuri, poraquê, arraia ou piranha.
Botou olhinhos ressabiados para fora e nada. Sem onça, nem surucucu, jararaca ou sapo ponta-de-flecha, muito menos um bandinho de macaco assustado. Só a moça no fundo do rio, que esperneou, mas não subiu de volta. A moça tranquila, sem brilho nos olhos.
Água parada, voltou para o seu jacarezar. Não convinha entender o traiçoeiro bicho humano, ele é bicho do mato e sabe se virar, todo bicho sabe. Sonhou com banquetes educadamente recusados de capivara.
Noites seguintes de rio calmo como nunca, nada da tal moça, na certa se cansou de ser coitada. Viu a folha grandona boiando no rio feito fosse uma rainha, redonda feito o buraco brilhoso no céu, aparecida do nada. Nunca tinha ouvido aquilo de nenhum outro jacaré ou bicho, nem mesmo do morcego que ia longe e conhecia de um tudo, o maior contador de causo, proeza e novidade.
Naquela boia verde floriu uma beleza noturna perfumada, tão brilhante quanto o olho da moça. Um brilho que fascinava e embelezava. Ele gostava daquilo, gostava muito, até demais. Gostava e jacarezava.

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